06/07/2015

A Dor de Perder Alguém #2 (Pai)

Olá Meus amores! Tudo bom com vocês???

Então, mais um post nesse assunto tão delicado, vamos lá?

Como falei no post anterior (não leu? É só clicar AQUI), já perdi muitos familiares e isso me doe muito. Hoje quero falar para vocês a triste experiência de perder meu pai.



Vamos do início (de onde consigo lembrar)...

Meu pai era meu herói, e não é nada clichê. Ele realmente me inspirava. Tinha muito ciúmes de mim, ele era o tipo de pai que tinha cuidado com os cabelos, unhas, dentes, corpo... Ele sempre dizia "Mulher não precisa cortar os cabelos, tem que apenas tirar as pontinhas", "mulher não pode ter dentes estragados, é feio", "mulher tem que saber dançar", "você precisa aprender a se cuidar, se valorizar", "Pai não pode ver a filha sem roupas nem com biquíni, é falta de respeito" e coisas do tipo. Eu adorava esse cuidado dele comigo. Me sentia uma verdadeira princesa.
     Me lembro muito bem de noites que eu ia dormir e tinha lagartixas na parede, eu gritava com medo e ele saia correndo para me "socorrer", rsrsrsrs. Também lembro das noites que eu esperava ele do trabalho para jantarmos juntos, ele adorava pão com fiambre, eu comia muitoo. A gente comia com as mãos mesmo e eu me sentia uma adulta por comer igual ao meu pai. Depois de comer, corríamos para a sala, arrastávamos o sofá e eu ia fazer minha "apresentação de dança". Na época eu dançava Daniela Mercury e me sentia a própria (que época boa!). Nos dias que meu pai estava cansado, ele sentava no sofá e eu fazia cafuné nele, nos dias que ele não estava cansado, brincávamos de cavalinho, de correr pela casa, de "Bang Bang" (era uma brincadeira nossa, tipo polícia e ladrão, só que ouvindo umas músicas que tinham sons de tiros e cavalos).
     Apesar de todos os problemas que minha família tinha, eu era feliz. Até que...

     Bom, antes de falar da parte ruim, quero falar de mais experiências boas que tive com meu herói. Ele gostava muito de bois, cavalos, fazenda, essas coisas. O sonho dele era que eu seguisse os passos dele nesses gostos. Sempre me vestia com roupas de couro, botas, chapéus e tudo que fosse de franjas. E claro, sempre com os cabelos soltos. Eu me sentia!!! Ele me levava pra vaquejadas, boiadas, cavalgadas, tudo que fosse festa do tipo. Meu tio tinha um sítio/fazenda e eu ia para lá com meu pai. Lá eu tomava o melhor café quentinho do mundo, com leite de verdade! Brincava na lama com outras crianças de bola, de pega pega, corria atrás de galinhas, patos, o que tivesse por lá. Meu pai me colocava em cima de cavalos, bois, touros, até tirava fotos se sentindo orgulhoso (uma pena que minha mãe não tenha guardado todas as fotos, ficaram muito estragadas e cobraram muito caro para restaurar, choro só de pensar que as únicas lembranças são da minha mente e poucas e velhas fotos super manchadas).
     Em uma dessas idas a esse sítio/fazenda, meu pai me ensinou coisas que trago até hoje comigo. Ele me deixou brincar com uns coleguinhas de bola, nessa brincadeira, na minha vez de pegar a bola, ela saiu deslizando numa ladeirinha de barro e eu tive medo de ir pegar. Um menino mais velho ia pegar, foi quando meu pai disse: "deixe que ela vai, qualquer coisa eu estarei aqui". Isso me deu forças para ir pegar a bola, longe, mesmo sendo perigoso para uma menina de apenas 4 anos. Nesse mesmo dia fomos pegar laranja para comer, foi quando ele me perguntou se eu queria e eu claro, disse que sim, adorava comer as frutas fresquinhas de lá. Só que não tinha faca para descascar (na verdade tinha na casa, mas não iríamos voltar só para fazer isso, ou meu pai tinha a intenção de me ensinar mais alguma coisa). Daí ele fez um furo com os próprios dedos e começou a descascar, eu achei estranho porque achei que a laranja tinha ficado muito "feia" e perguntei como eu ia "chupar" e ele disse, "assim, mordendo". Eu me sujei toda e adorei, me senti livre.
   
     Para muitos isso pode parecer besteira, mas são ótimas lembranças que tenho da minha infância com meu pai e isso levarei comigo até meus últimos segundos de vida. Como faço do blog meu diário (virtual), acredito que seja uma forma de "eternizar" essas lembranças.
   
     Mas infelizmente a vida me surpreendeu, num dia qualquer, mais um dia de trabalho dele, ele sae cedinho de casa, às 5h. No caminho do trabalho, vários tiros o acertam e ninguém podia fazer mais nada. Um vazio imenso em minha casa, minha mãe sentiu algo estranho na manhã, até receber a notícia! Choros, tristeza, solidão. Um caixão na sala, a despedida. Silêncio. Respeito. Mais choros... Isso define o velório. Logo fui tirada de lá, me levaram para a casa de uma tia para passar uns dias, mas eu sabia perfeitamente o que iria acontecer daquele dia em diante: solidão. Chorei muito, tive febre, delirei! Delirei dias, fiquei muito mal, vendo homens correndo atrás do meu pai e o matando, como se eu tivesse visto tudo. Foi horrível!!!
     Passaram-se meses, mudamos de casa, de vida. Comecei a viver a vida diferente, sem meu pai, sem mimos, sem sorrisos. Decidi nunca mais dançar. Comecei a vê-lo como se não tivesse deixado o mundo, apenas tivesse perdido o corpo carnal, mas não o espiritual (será assunto para um outro post) e minha mãe, com medo que eu ficasse doente ou louca, decidiu que mudaríamos de cidade, de estado. E assim foi feito. Voltamos novamente para a mesma casa apenas depois de 10 anos depois. 
     Passaram-se anos e ainda tenho as lembranças em minha mente como se tivesse sido ontem, ou semana passada. Ainda doe, doe muito. Ainda sinto desespero as vezes... Mas me contenho. Ou tento... Esse ano, mais precisamente dia 28 de outubro, exatamente um mês e 14 dias depois que completo ano, contarei mais um ano sem meu pai. Hoje, com quase 25 anos de idade, carrego comigo lembranças de uma menina de 4 anos que tem o seu pai como um verdadeiro herói.


José Humberto Dantas da Silva, meu pai, meu herói.

:'(